Eu sempre respeitei o mar, seja por sua imensidão, seja pela quantidade infinita de caixote que tomei ao longo da infância. Meu pai ultrapassava a arrebentação e dizia que estava me esperando do outro lado. Como ele tinha umas mãos bem grandes e o prêmio era boiar, lá ia eu.
Então, quando batemos o martelo que íamos vender nossa casa e mudar para um apartamento, eu logo disse que ia nadar no mar. Tirei isso do nada, como nove entre dez invenções que me proponho a fazer. Não elaboro muito, só vou e construo no caminho.
Assim, depois de brincar que mudei de bioma do mato para o mar, comecei a andar na praia, mergulhar no posto 6, fazer stand up e um dia, numa consulta à ginecologista, ela me disse que nadava e me indicou a equipe dela. Aí não teve jeito, convenci uma amiga vizinha a ir numa aula experimental. Estava nublado, frio, mas adoramos. A sensação de nadar envolta naquela vista maravilhosa da Princesinha do Mar nos arrebatou. Foi um ano nadando em qualquer tempo. Fomos testando. Mar lisinho e transparente, tartarugas, e também com ondas, ressaca, vento na cara… E entendemos nosso intuito – que nossa natação é lazer – e, por isso, não treinamos para Rainha do Mar, não viajamos para travessia… só aprendemos e vivenciamos a experiência.
No início desse ano, numa sexta de sol, estava caminhando para minha aula e vi nosso afilhado mais velho saindo do mar. Estava cansado. Tinha sido o primeiro dia nadando no mar. Naquela época estava passando a semana em São Paulo e treinando em piscina. E ele me disse: “mar é diferente dinda, não tem borda”.
Fiquei impactada com a fala. Nunca tinha pensado nisso. Nem mesmo que, depois da arrebentação, fica fundo. Afinal, só me jogava no mar e seguia os professores, um que vai à frente e um que vai atrás.
Alguns meses depois, numa sexta-feira, comigo completamente cansada física e emocionalmente e de malas prontas para uma viagem na tarde do mesmo dia, mantive a ida à aula. Saímos com o professor e quando me dei conta, estava completamente sozinha no meio daquele marzão. Por uma coincidência que não me lembro ter vivido em nenhum outro dia, o segundo professor (que vai atrás) demorou a entrar no mar e ainda estava muito longe. Bem, travei. Me dei conta da minha exaustão e percebi que se tem um lugar que você não pode entrar em modo pânico é no mar. Organizei meus pensamentos em segundos e, mesmo o grupo estando mais perto que a borda, resolvi retornar.
Fui nadando devagar e sempre. No meio do caminho o segundo professor me auxiliou e cheguei sã e salva.
Pensando bem, salva sim, sã não sei. A experiência mexeu comigo.
Viajei, voltei e pensei: preciso voltar à aula e encarar meu medo, porque não tem cabimento, é Posto 6. Para não deixar minha mente me travar ainda mais, fiz uma coisa rara para meu temperamento. Voltei pra trás. Pedi ao professor e avisei minha amiga, que iria fazer aula na escolinha. A aula da escolinha é na beira e para os iniciantes. E assim foi. Foram algumas semanas nessas aulas. Até que um dia, o mar estava deslumbrante, sol, perfeito e retornei ao grupo.
E aprendi – duramente – a principal lição em muitos anos: muito mais que respeitar o mar eu precisava aprender a respeitar a mim mesma.
Eu jamais deveria ter ido nadar naquela sexta-feira. Eu deveria ter escutado meu corpo e meu estado de espírito. E só ter tomado um café quentinho e me preparado para viajar. Eu não estava cansada, estava exausta.
Sem dúvida nenhuma é preciso estar aberto a novidades, às mudanças, encarar novos desafios e aprendizados. Mas também precisamos nos escutar.
Penso que aprendi. De lá para cá retomei a rotina e meu afilhado, não só nada regularmente, como corre e pedala e amanhã vai fazer IronMan.
Há previsão de ressaca. Se confirmada, esta prova será cancelada. Bom senso.
Estarei acompanhando sua superação pessoal. Porque no fundo (e no raso) é sobre isso: achar o equilíbrio entre se superar e se respeitar.
Ps: A prova no mar não foi cancelada, o percurso foi reduzido devido à correnteza e à entrada do sudoeste.
